A violência da seca mata mais do que bala em Alagoas
   21 de junho de 2012   │     22:53  │  0

Alagoas e seus dramas. Em Maceió balas perdidas acham crianças e idosos, numa tragédia que não poupa nem os ricos, mas como se sabe atinge muito mais os pobres. Esse tipo de violência também migrou para o interior. Até aí nenhuma novidade. De homicídios a roubos de banco o medo se democratizou no Estado.

Os que continuam vivos ou fogem ou aprendem a conviver com essa realidade.

Mas existe um tipo de violência que passa longe de Maceió e não parece preocupar (de verdade) nenhum dos líderes políticos do Estado. É a violência da seca.

A estiagem prolongada tem produzido dramas em série no interior. A cada dia, me contam um fato. Um produtor de Senador Rui Palmeira perdeu cerca de 200 animais. Essa semana chegou a notícia da morte de 4 mil reses em Mata Grande. Em números é maior do que os homicídios registrados em Alagoas durante todo o ano.

E o dinheiro que ser perde, a riqueza que vai embora seca abaixo, não é coisa pouca não. Um bezerro custa quase R$ 1 mil. Uma vaca passa dos R$ 2 mil.   São milhões que estão “evaporando” do dia para noite no sertão.

Mas o que são vacas, bois, carneiros, bodes ou jumentos diante de vidas humanas?

Mas não é só isso, não! A seca está matando a esperança e tirando o futuro de milhares de sertanejos e até de agrestinos.

No último sábado conversei com um agricultor em Feira Grande. Almir plantava fumo, mudou para a mandioca por conta da alta nos custos e pela escassez de mão-de-obra.

Até o ano passado, ele chamava dez trabalhadores para o plantio, aparecia um ou dois. Esse ano, ele chama um aparecem dez. “Com a seca, os pequenos agricultores não botaram roça. Tem gente que já está  passando fome”, relata.

Então a seca não rouba apenas o futuro, mas mata também de fome e tira a dignidade.

E se a situação chegou a esse ponto na região agreste, onde chove normalmente 60% mais que o semi-árido, imagine como não está a situação no sertão!

A continuar assim, logo as estatísticas vão mostrar mais do que a morte de rezes. Se a ajuda não chegar rezemos para que velhos e crianças não morram de fome ou que os trabalhadores não se desesperam e deem um tiro na própria cabeça.

Porque uma coisa é verdade: enquanto discutimos em Maceió como será o plano de segurança, mais da metade das cidades alagoanas sofrem com o drama da seca, um problema que apesar de sua gravidade não está na prioridade (ou ao menos não parece estar) das autoridades estaduais.

O dilema do bagaço de cana

Até agora – é importante registrar – nem mesmo o bagaço de cana prometido pelo governador há exatos 21 dias chegou ao produtor dos 33 municípios em estado de emergência por conta da seca. (http://www.infraestrutura.al.gov.br/sala-de-imprensa/noticias/2012/06/governador-confirma-r-12-milhoes-para-combater-efeitos-da-seca)

Depois de enfrentar uma injustificável demora na tramitação burocrática o processo foi liberado nesta quinta, segundo informações que circularam nos principais sites do Estado.

O governo vai comprar 6,6 mil toneladas de bagaço de cana e distribuir 200 toneladas por município. A aquisição será feita nas usinas Pindorama (Coruripe) e Triunfo (Boca da Mata). O bagaço deverá ser retirado pelas prefeituras das 33 cidades beneficiadas.

A “despesa” para o Estado será de apenas R$ 330 mil (R$ 50 a tonelada, valor bem abaixo do mercado). Talvez por isso seja difícil compreender porque o comitê de ações contra seca demorou tanto a agir. Ou falta sensibilidade ou é algo feito por capricho.

Até porque o governador fez o principal, que foi liberar o dinheiro.

Como explicar agora a um pequeno agricultor que está vendo suas vaquinhas, fonte de renda da família, morrer de fome, que alguns burocratas que estão em seus gabinetes em Maceió correm os processos em passos de tartaruga?