Graça sem graça, dá graças por estar viva
   27 de junho de 2012   │     2:18  │  0

O medo passou a fazer parte do cotidiano de quem vive em Alagoas. Especialmente, Maceió. Cada um de nós tem uma história de violência (seja ela direta ou indireta) para contar, algo que atinge você, um amigo ou parente.

Minha sobrinha, estudante de Odonto, 21 anos, foi assaltada, com revólver na cara, pela segunda vez este ano. A vantagem é que no segundo roubo ela reagiu com muito mais tranquilidade. Seu alívio: estar viva.

Com minha mãe, 67 anos, o drama foi um pouco maior. No começo de março deste ano, um domingo cedo da noite, ela foi abordada na Mangabeiras, quando voltava para casa. O “maloqueiro” que estava numa mobilete fez força para tirar a bolsa de sua mão e a jogou contra o meio fio.

Ela sofreu traumatismo craniano e ainda enfrentou durante dois dias o “purgatório” (ela prefere chamar de inferno) nos corredores do HGE. Dois meses depois de tratamento, seu alívio: estar viva. “agradeço a Deus, sei que poderia ser pior”.

De pequenos furtos de celulares, a perseguições de mulheres por “maloqueiros” ouço quase todos os dias uma história diferente de um colega, um amigo ou parente vítima da violência, vítimas de crimes que nem sequer entram para as estatísticas por falta de policiais para registrar BOs.

Ontem eu ouvi mais uma história. E essa me deixou sem graça, triste até, por conta de um “aperreio”  vivido por uma colega de trabalho que mora na região da Virgem dos Pobres.

Graça, 40 anos, normalmente é mais alegre, a mais cheia de graça no nosso grupo de convivência diária (afora os dias de TPM, claro).

Mas ontem ela chegou para o trabalho calada, sem graça mesmo, ainda sob o efeito de diazepan, contando o drama que viveu na segunda-feira.

“Um maloqueiro entrou na casa de minha mãe. Achei que ele tinha fugido, mas se escondeu debaixo da cama. Quando entrei no quarto ele saiu de lá, botou o revólver na minha cara, eu gritei. Ele mandava eu me calar e eu gritava, não conseguia me controlar”.

Por muita sorte, ela saiu viva. “Dei graças Deus por ele não ter atirado. O pessoal disse que eu escapei por pouco”.

O “maloqueiro” fugia de outros “maloqueiros” numa região aonde a polícia vem sendo recebida a balas. Ontem, um dia depois do ocorrido, ele foi morto. Briga de gang? Drogas? Sabe-se lá!

Terminei a conversa perguntando: foi a Polícia? “Que polícia. Quando eles aparecem por lá terminam matando gente inocente de bala perdida, que não tem nada a ver com o crime”.

Esse é apenas mais um drama entre os milhares que vivemos. Eles me fazem lembrar que todos nós de alguma forma temos sorte de não ter virado estatística no IML. Por isso temos que dar graças, agradecer mesmo a Deus, a nossos anjos da guarda, por estar vivos.

Tudo isso me faz lembrar os gladiadores no auge do império romano. Antes de começar a luta fatal eles saudavam o imperador: “Ave, César, os que vão morrer te saúdam”.

Nós que queremos ficar vivos, hoje (no dia do lançamento do Brasil Mais Seguro – Alagoas) temos também nossa saudação: “Ave, Téo, os que não querem morrer torcem para você acertar”.