Valor: “Renan faz aposta mais arriscada em 40 anos”
   31 de julho de 2017   │     16:52  │  0

“Vocês jornalistas não acreditam, porque teve essa coisa de me aliar ao Sarney. Então me taxam de velha política. Mas eu sempre fui de esquerda”.

A frase de Renan Calheiros marca a abertura de reportagem especial do jornal Valor, um dos mais importantes jornais do país, publicada nesta segunda-feira,31.

Vandson Lima, repórter especial do Valor acompanhou a agenda do senador durante alguns dias na última semana, em Maceió, além de colher a opinião de diferentes fontes, a exemplo do professor Cícero Péricles, do ex-governador Teotonio Vilela Filho e de participar de encontros de Renan Calheiros com prefeitos, vereadores e o governador Renan Filho.

Num longo texto, Valor diz que o senador “coloca agora em marcha sua aposta mais arriscada em 40 anos de trajetória política: obter, em 2018, em um mesmo pleito, a sua reeleição e de seu primogênito, o governador de Alagoas Renan Filho, amarrando as candidaturas ao retorno do petista Luiz Inácio Lula da Silva, igualmente às voltas com a Justiça, à Presidência da República”.

Leia a reportagem:

Renan faz aposta mais arriscada em 40 anos

“Vocês jornalistas não acreditam, porque teve essa coisa de me aliar ao Sarney. Então me taxam de velha política. Mas eu sempre fui de esquerda”

Por Vandson Lima | De Carneiros (AL)

“Eu agora sou do baixo clero. Vou a Brasília na terça e quinta-feira, meio-dia, estou voltando. Então, podem me convidar para os eventos que eu vou”. A plateia, de aproximadamente 40 prefeitos, sorri satisfeita com a oferta de Renan Calheiros (PMDB). Na reunião da Associação de Municípios Alagoanos (AMA), o senador expõe seu plano de visitar, inclusive nos fins de semana, cada uma das 102 cidades do Estado em seu período livre de obrigações no Congresso Nacional.

Quatro vezes presidente do Senado, supracitado por delatores na Operação Lava-Jato e com uma dúzia de investigações e processos, Renan, “um sobrevivente” em suas próprias palavras, coloca agora em marcha sua aposta mais arriscada em 40 anos de trajetória política: obter, em 2018, em um mesmo pleito, a sua reeleição e de seu primogênito, o governador de Alagoas Renan Filho, amarrando as candidaturas ao retorno do petista Luiz Inácio Lula da Silva, igualmente às voltas com a Justiça, à Presidência da República.

Se der certo o plano, Renan sai na frente para se credenciar como a principal liderança de um futuro governo Lula. Se der errado, pode arrastar para o buraco o filho, hoje com uma administração elogiada até por adversários no Estado. São políticos experientes, acostumados à vitória, desta vez equilibrando-se entre a ficha suja e a ficha limpa.

Tido como símbolo do pragmatismo político, Renan, que se iniciou na política como líder estudantil ligado ao PCdoB, garante que fará essa sua terceira encarnação pela esquerda. “Vocês jornalistas não acreditam, porque teve essa coisa de me aliar ao [José] Sarney. Então me taxam de velha política e tudo mais. Mas eu sempre fui de esquerda”, assegura.

É da época de estudante que Renan diz ter tido seu primeiro apoio do ex-presidente. “Em 1978, como líder sindical, Lula apoiou várias candidaturas no Brasil que tinham uma pauta popular. A minha, a deputado estadual, foi uma delas. Ele me cobra por isso até hoje”, diz.

Em Alagoas, Renan fala aos conterrâneos sem receios sobre sua futura aliança com Lula, que tem inclusive data para se mostrar ao mundo: em agosto, ele e o filho governador prestigiarão a concessão do título de Doutor Honoris Causa a Lula pela Universidade Estadual de Alagoas (Uneal). A concessão, na verdade, foi aprovada ainda em 2012, mas a entrega, convenientemente, vai coincidir com a caravana, a ser iniciada pelo Nordeste, que Lula vai liderar por 20 dias e servirá como ato de lançamento de sua pré-candidatura ao Planalto.

“O Nordeste tem uma dívida enorme com Lula. Todos nós. E digo: se ele concorrer, vamos estar com ele e ele vai ganhar”, diz Renan a não mais que 30 agricultores e lideranças locais em São José da Tapera, pequena cidade no sertão alagoano composta de povoados e sítios, distante 240 km da capital. Parece inacreditável Renan, o todo-poderoso do Congresso, naquele cenário: uma casa simples, com reboco aparente, na qual o nome mais destacado depois do senador é o do anfitrião Kel de Tigela, vereador do município pelo PRTB. Qualquer entrevista do senador, em Brasília, conta com mais público do que os ali presentes.

Falante e direto, o Renan que encara um prato de galinha de capoeira em Tapera em nada lembra o personagem acuado que, em 2007, entupido de remédios, chegou a desmaiar à mesa durante a crise do caso Mônica Veloso, que o levou a renunciar à presidência do Senado, como conta o consultor de crises Mário Rosa em seu livro “Glória e Vergonha”. Renan foi acusado de usar a empreiteira Mendes Júnior, por intermédio do lobista Cláudio Gontijo, para pagar a pensão da filha que teve com Mônica em um caso extraconjugal. “Em campanha é assim: onde passa, tem que encher o bucho”, avisa Renan ao repórter, sem atentar ao ato falho de que a campanha – oficialmente – só começará daqui a um ano.

Emocionado pela presença ilustre, Kel de Tigela garante ao senador que será seu cabo eleitoral em 2018. Dele e do ministro do Turismo, Marx Beltrão, que tem trabalhado intensamente pela candidatura. Ex-prefeito de Coruripe, forte no Sul de Alagoas, Marx avalia até deixar o PMDB e migrar para o PSD para enfrentar Renan na luta pelo Senado.

A disputa será forte. Além de Renan e Marx, o ex-governador Teotônio Vilela (PSDB), e o atual senador Benedito de Lira (PP) são nomes cotados. Há ainda candidatos que podem embaralhar o jogo, como Heloísa Helena (Rede) e até Thereza Collor. As pesquisas de lado a lado mostram Renan e Teotônio à frente, com Marx e Lira um pouco atrás.

Por isso, Renan intensificou, no recesso parlamentar de julho, sua agenda de encontros. Quer se valer de seu principal atributo, apontado por aliados e adversários: uma capacidade quase obsessiva de ouvir e registrar necessidades de cada interlocutor, seja o presidente da República ou um pequeno líder local. “Existe uma percepção errada, para não dizer preguiçosa, de que Renan é apenas um coronel da política alagoana”, diz o professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Cícero Péricles de Carvalho, uma das maiores referências sobre economia e política alagoana. “Ninguém permanece tão poderoso por tanto tempo apenas sendo coronel. Renan é um especialista em captar o chamado ‘pensamento médio’ e, com isso em mãos, se movimentar antes dos acontecimentos”.

Hoje em lados opostos na disputa política, mas ainda amigos, o ex-governador Teotônio Vilela Filho (PSDB) confirma o diagnóstico sobre Renan. “Ele é capaz de se sentar a esta mesa e ouvir, por 5 horas seguidas, um monte de vereadores inexpressivos. E demonstrando interesse”. Teotônio lembra uma viagem que os dois fizeram a Paris, na França, em uma missão do Senado, onde a característica ficou patente. “Renan foi a Paris, mas não esteve em Paris. Ele estava em Alagoas, via telefone. Passou o tempo todo com o celular na orelha, atendendo vereadores e prefeitos”.

Em um almoço no Palácio Floriano Peixoto, sede do governo, Renan e Renan Filho deixam de lado as formalidades, vistas minutos antes, na solenidade de assinatura do contrato para a construção do viaduto da Polícia Rodoviária Federal. Em público, o governador jamais chama o senador de “pai”.

Em sua incursão à esquerda, Renan reclama do pente-fino feito pelo governo federal e que retirou 18 mil famílias alagoanas do programa Bolsa Família há poucos dias. “Estão querendo fazer ajuste no lugar errado. Bolsa Família fomenta as economias locais e o custo não dá 1% do PIB. É um erro essa diminuição”.

Animado, entre um gole e outro de whisky, Renan conta que tentou convencer Feijó, um descobridor de talentos futebolísticos local que revelou, entre outros, o zagueiro Pepe, do Real Madrid, das qualidades do filho com a bola. “Eu levava jeito. É que agora engordei, rapaz. Tô até num regime”, conta o governador, antes de mostrar, orgulhoso, um vídeo em que marcou três gols num amistoso em Alagoas que teve a presença de Zico.

Segundo Fernando Pinto, ex-prefeito de Batalha, Renan também exibia certo talento futebolístico, mas jogando como quarto-zagueiro, nos tempos da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), na qual cursou Direito. “Ele era um zagueiro classudo, estilo Mauro Galvão”, compara Pinto, em referência ao defensor que se notabilizou no Botafogo, time do qual Renan é torcedor, e na seleção brasileira. É dessa época a amizade de Renan com o ex-ministro Aldo Rebelo (PCdoB), um de seus principais confidentes.

A caminho do sertão alagoano, Renan fala sem parar durante as quase três horas de viagem. Afirma com convicção que não será condenado e todas as denúncias que pesam contra ele são de “ouvi dizer”. Ou seja, delatores que não têm prova de seu envolvimento em qualquer ilegalidade. E que o Ministério Público e a Polícia Federal insistem nos casos porque definiram que ele é um alvo. “É uma perseguição, sem dúvida nenhuma”. Seus eleitores também não parecem preocupados com isso: o assunto não existe em seu trajeto.

Outro que tentou derrubá-lo, diz, foi Eduardo Cunha. “Ele abriu na Câmara seguidas CPIs tentando achar coisas contra mim”, diz. Cunha mirava Renan para tirar dele próprio o foco de investigações e se fortalecer no PMDB, já que eles eram forças opostas na luta partidária, acredita o senador.

Em Santana do Ipanema, onde se realiza uma procissão que tem o deputado federal Givaldo Carimbão (PHS-AL) comandando os festejos, uma mulher pede uma bíblia ao ex-quase-comunista Renan. Prontamente ele destaca um assessor para resolver a questão. O senador não anda com seguranças, apenas um assessor, motorista e a equipe que abastece suas redes sociais com fotos e vídeos.

Renan acredita que, em uma campanha de dinheiro escasso e com muitos candidatos, como tende a ser a eleição ao Senado em Alagoas, sua chance de recondução é maior. Primeiro, porque já tem um “legado” a apresentar. Segundo, porque como serão duas vagas em disputa, crê que além dos seus eleitores cativos, obterá o segundo voto dos eleitores de vários concorrentes, como Marx Beltrão e Teotônio.

São 22h40 quando Renan finalmente chega à festa de aniversário de Carneiros, pequena cidade de 9 mil habitantes a 246 km de Maceió. A cidade é comandada por Geraldo Filho (PMDB), o Neguinho, que curiosamente é casado com outra prefeita, Juliana Almeida, de Mar Vermelho, a 150 km dali. Eles se conheceram quando já eram prefeitos, em gestões anteriores. “E o cupido fui eu”, diverte-se o governador Renan Filho, que também compareceu aos festejos.

Apelidado de “atleta” nas planilhas de doações da Odebrecht, Renan pai, 61 anos, exibe invejável disposição depois de mais de 12h horas de agenda e 300 km rodados. Cumprimenta pacientemente todos à sua volta: os policiais, o pipoqueiro, faz selfies com jovens orgulhosos. Em nenhuma das cidades onde o Valor acompanhou sua comitiva, Renan foi vaiado ou insultado.

No retorno a Maceió, Renan continua a falar durante as 3 horas de trajeto: revela que um dos motivos de seu rompimento com Michel Temer foi o presidente não quitar a dívida da União com o Estado referente à venda da antiga Companhia Energética de Alagoas (Ceal). “O Temer é aquela coisa. Fala que vai fazer e não faz. Não tem firmeza”. Num dado momento, Renan fala brevemente sobre seu envolvimento com Mônica Veloso, motivo de uma ação penal no Supremo Tribunal Federal (STF) que voltará a tramitar após o ministro Celso de Mello concluir, há uma semana, a revisão de seu voto. Renan, que se refere a Mônica como “aquela senhora”, revela que escreveu um livro com sua versão do episódio. Mas resolveu depois não publicar “para não remexer nisso”. O documento está guardado.

São 1h58 quando o carro da equipe deixa Renan em sua residência, em Ponta Verde. Ele não demonstra cansaço ou sono. Ainda puxa o assessor de lado, dá instruções e acerta a agenda dos próximos dias. E se despede com o seu característico “um grande abraço”.