A última e inesperada viagem de Fernando Medeiros
   9 de fevereiro de 2020   │     23:07  │  1

Para quem o conhecia, a personalidade era marcante. A gargalhada longa e descontraída, o bom humor permanente, a capacidade de buscar soluções, de apagar incêndios, de dar conselhos, de apaziguar ânimos, de promover a união eram algumas das suas características.

Engenheiro que trabalhou no projeto Jari, que ajudou a construir a Braskem e ironicamente teve de sair da casa que morava por conta do desastre provocada pela empresa no bairro do Pinheiro.

Produtor rural, empresário, homem família e de muitos amigos, de muitas ideias e projetos caprichosos.

Traduzir Fernando José de Lima Medeiros, 67, não é fácil. Se despedir dele, “para sempre”, muito menos.

Nesse sábado, 8, pela manhã, Fernando cumpriu uma rotina que se repetia nos últimos anos. Acordou cedo e foi até o laticínio Degust, que fica instalado ao lado de uma propriedade sua, próximo ao centro urbano de Quebrangulo.

Lá conversou com o gerente e, ao de despedir, brincou como sempre, perguntando se podia ir embora, se ainda precisavam dele. “Liberado” deveria viajar para Maceió. Desta vez, tombou vítima de um infarto fulminante para não mais se levantar.

No domingo, acompanhei a última jornada de um amigo que fiz durante muitas viagens ao longo dos últimos dez anos.

Estivemos juntos na missão de Alagoas ao Canadá, em 2012. Depois em 2014, na Europa, para receber o certificado internacional de zona livre da febre aftosa. E nesses anos todos, estivemos em outras várias missões Brasil afora. No Paraná, Espírito Santo, Minas Gerais, Santa Catarina, Goiás e principalmente Brasília e Alagoas.

Em cada viagem, reencontrava um amigo que sempre acordava cedo – mesmo quando dormia muito tarde – com total disposição, muita paciência, sabedoria e habilidade de lidar com as pessoas.

Era Fernando quem se encarregava do planejamento, do roteiro das visitas, das boas conversas, das melhores refeições. Era Fernando, quem sempre se preocupava com os problemas e necessidades de todos e que estava sempre pronto para ajudar, para resolver.

Era Fernando que sempre perguntava, que queria saber dos acontecimentos mais importantes.

Certamente, se pudesse, teria me perguntado como foi a sua última jornada. E eu contaria assim… O velório e a missa na casa de sua mãe, dona Inês, em Quebrangulo e de lá o percurso de umas centenas de metros, descendo a rua, dobrando, seguindo, dobrando novamente, subindo, passando pela igreja matriz, chegando ao cemitério.

Foi um sepultamento a altura de um cara que se tornou querido por toda Quebrangulo e amado pela família e pelos amigos que fez em Alagoas e no Brasil.

Dezenas de coroas de flores, cortejo com banda de música e muitos amigos disputando o privilégio de carregar por alguns momentos a urna que será tua última morada por aqui.

Seus irmãos todos estavam lá, seus sobrinhos, seus filhos Bruno e Camila e Fátima, sua companheira de 50 anos. Todos falaram com você, para você e deixaram mensagens de cortar o coração. Mas nada deve te superado a dor e a emoção de Inês, sua mãe, que tenta encontrar conforto nos ensinamentos de Deus para aplacar a dor de ver o filho saindo de casa para não mais voltar.

Nessa ida a Quebrangulo para acompanhar sua última jornada, a viagem lembrou demais as muitas que fizemos. Fui com Aldemar, nosso companheiro em todos estes destinos. E quem foi com a gente, “guiando”, como você fazia, foi o Carimbão.

Durante todo o trajeto de ida e volta ele lembrou muito você. Perguntava se estava dirigindo bem, se a gente precisava de alguma coisa, providenciou o almoço na casa do seu primo-irmão Marcelo. E lá tomamos uma dose de Whisky em sua homenagem, do seu Whisky, que ele sempre deixava guardado para você.

No retorno conhecemos duas casas de acolhimento, uma em Quebrangulo e outra em Marimbondo e fizemos uma parada na estrada para tomar água de coco e esticar as pernas. Uma viagem com programação completa e recheada de boas conversas, muitas delas sobre o cara que você era. Um cara que viveu intensamente, que fez o bem, que plantou, que colheu e que deixou sementes que darão bons frutos.

Parta em paz e na alegria.

Até breve.

Edivaldo Junior

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